quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

José Vieira um Valenciano na Resistência à Ocupação Nazi

Não tinha ainda as palavras para nomear percursos como o de José Vieira, nascido em 1907 em Valença do Minho, que emigra para França aos 14 anos, “sem nada, nem um saco”, a pé. Que chega ao sul do país mas não se fica por lá, rumando para o norte industrial e desembocando na região de Meurthe-et-Moselle, onde casa com a mãe de Josiane. E onde, após a ocupação alemã, se torna membro da Resistência. A sua casa serve de correio e esconderijo de camaradas, mas não tarda em ser denunciado. A polícia francesa prende-o com uma violência que José nunca iria esquecer. “Bateram-lhe de tal forma na cabeça que ficou seis meses a ouvir mal. Ele ripostou: ‘Estou a lutar pelo teu país e nem sequer sou francês e ainda me bates e me chamas de terrorista’”, relata Josiane.
Aos 78 anos, as memórias das conversas com o pai estão frescas como se tivessem acontecido ontem. Corrige-nos quanto à data da prisão: junho de 1941. Pouco depois, um tribunal militar alemão em Nancy condena-o a cinco anos de trabalhos forçados na Alemanha e transfere-o para a penitenciária de Siegbourg. O fim da guerra ditaria que cumprisse apenas três anos e meio. Mas o tempo passado na fábrica de viscose e celulose Rheinische Zellwolle seria mais do que suficiente para deixar sequelas. “Estava muito doente. Quando chegou, tinha uma tosse permanente e uma úlcera varicosa numa perna, que demorou dois anos a sarar”, lembra a filha. Como bom resistente, José várias vezes sabotou as máquinas da fábrica, entorpecendo a produção. Teve para isso um amigo, “um preso alemão” que o ensinou a ler e a escrever, além de lhe assegurar uma maior dose de alimentos nas alturas em que a doença se agudizava.
Após o regresso a casa, José Vieira viu nascer mais dois filhos. E, contra todas as expectativas, voltou a viver cinco anos na Alemanha. Josiane era cantora, trabalhava em Saarbrücken e levou a família toda para lá. José ainda fincou o pé e ficou seis meses sozinho em França antes de ceder. Diz ela que foi marcante ouvir o pai virar-se do avesso e reconhecer, com a maior dor do mundo, que aquele país “também tem gente de bem”. Acabou os seus dias em casa da filha, em Alsting, na terceira vivenda francesa a partir da fronteira alemã. Pôde brincar com alguns dos netos. Morreu aos 87 anos.
in Expresso